Amadurecer | Uma nova chance de se conhecer

Atualizado: 10 de jul. de 2021

Para além das marcas físicas, a passagem dos anos pode contribuir para um amadurecimento saudável e um caminho de autoconhecimento


Ao longo dos anos, o corpo humano tende a transparecer mudanças, como alterações na forma física, comportamento, embranquecimento dos fios de cabelo e surgimento de marcas de expressão. É esperado que haja um estranhamento, como tudo o que é novo ou desconhecido. A primeira reação pode levar ao desejo de retornar ao que era antes, retomar a imagem perdida ou inconscientemente negar os efeitos do envelhecimento. Porém, um segundo olhar para estas mudanças pode conduzir a um processo positivo.


Segundo a psicóloga Valmari Aranha, especialista em gerontologia, a questão não é como você aparece, mas sim como você se sente quando aparece. Para que haja uma aceitação das transformações ocasionadas pela passagem do tempo e do que você vê refletido no espelho, é preciso ter uma boa relação interna com a sua identidade. É importante ser jovial, manter a energia e a motivação lá no alto, mas jovialidade não é o mesmo que parecer jovem.


A aceitação de si converge para uma melhora da autoestima, autoconfiança, saúde mental e até na percepção do outro sobre você. Mas o envelhecimento nem sempre foi encarado com leveza, principalmente pelo sexo feminino, que historicamente sofre em maior proporção com pressões estéticas. Segundo Naomi Wolf, no livro O Mito da Beleza, existe uma ameaça social, “as mulheres primeiro aceitarão seu envelhecimento, depois irão admirá-lo e finalmente irão aproveitá-lo”.


A novidade pode trazer um frescor à sua vida. Até mesmo a chance de começar a fazer coisas que antes deixava de lado. Uma oportunidade de se reinventar, amar, melhorar ou tudo isso junto. Aos 39 anos, a psicóloga Nara Essaki é um exemplo de que amadurecer pode ser muito mais do que só alterações no corpo.


Nara Essaki
“Refletindo, penso que as mudanças físicas vieram primeiro; não se trata só da barriga, mas a gravidez me deu um corpo mais torneado.
(...) Agora tenho estrias, celulite, flacidez, coisas que não tinha, mas que pouco me importam, não me sinto menos bonita. Hoje, meu outro lado prefere muito mais meu corpo assim, mesmo com todas essas questões. Acredito que isso é parte do amadurecimento, quando a autoestima não está vinculada somente à estética.
Daí, penso que é de onde surge a mudança comportamental. (...) Sinto que minha autoestima está mais vinculada ao que tenho a oferecer nas relações, de forma intelectual e afetiva. O que me nutre são as trocas de ideias, as conversas que podem acontecer sem precisar de brigas por discordar de pontos de vista, de olhar para o outro com mais empatia e menos julgamento. A maturidade tem me trazido serenidade, foco e objetivo. (...) Parafraseando um amigo, a maturidade, para mim, se resume em duas palavras: força e leveza.

Mesmo diante de eventuais resistências, já se pode observar uma mudança de comportamento por parte das mulheres maduras, que cada vez mais se veem representadas na mídia. Em entrevista para o nosso site, a psicóloga Valmari Aranha disse que ao seu ver, essa mudança se deve à uma ruptura do papel da mulher e complementa, “A partir do momento que hoje uma mulher que é ativa, que é produtiva, que se gosta, se mostra como ela realmente é e uma mulher mais velha, isso deixa de assustar as outras pessoas”.

 

Carla Domingues tem 48 anos, é funcionária pública, e conta que passar pela transição capilar foi um processo de autoconhecimento. Segundo ela, no início a decisão gerou insegurança, mas o importante era que ela aceitasse a mudança, em primeiro lugar. Quando isso aconteceu, nas suas palavras, foi especialmente libertador, maduro e delicioso. “Não critico quem o quer pintar, tranquilo, mas exijo o respeito de eu poder ter a liberdade de deixar como eu quero. Natural, branco, enrolado ou liso, como eu quiser. Estou tão feliz que a minha expressão está sendo outra, tirei todas as amarras”, diz Carla.

 

Ainda que você prefira fazer algum procedimento estético, não é errado, desde que seja para fazê-la se sentir bem e não a transformar naquilo que você não é. A beleza vem de dentro para fora e a sugestão para sentir-se bem consigo nesta fase da vida, é o autocuidado. A psicóloga Valmari Aranha ainda ressalta que cuidar de si faz bem para todas as faixas etárias e que ao fazer atividades físicas, manter uma boa alimentação, ter qualidade no sono e usar um estilo de roupa que combina com você, consequentemente fará você parecer mais bonita.


Inspiração para a sua e outras gerações, Claudia Arruga, atual colunista do canal Sem Idade, na Vogue Brasil, gerencia o perfil Cool 50’s, no Instagram. Juíza federal há 22 anos, Claudia sentiu vontade de se aventurar em coisas novas e sair da zona de conforto. Com isso, procurou cursos novos, resgatou o gosto pela escrita e teve a certeza de querer ter um envelhecimento criativo.


Claudia Arruga

“Eu acho que o mais interessante depois dos 50 anos, muito mais do que ter uma cara de menina é ter um repertório interessante. E eu comecei a entender isso, que o bacana não é você se fixar na imagem dos 20, 30 ou 40 anos que você tinha, é pensar como você quer viver nos próximos 30, 40 anos. (...) Eu comecei a deixar a curiosidade me guiar e isso foi pra mim foi um processo de amadurecimento muito interessante”.



Conta do Instagram @cool50s

A conta do Instagram que começou como um passatempo para compartilhar dicas de livros e filmes, agora compartilha o que significa ter 50 anos atualmente, questões de síndrome do ninho vazio, relacionamento, pais envelhecendo, filhos adolescentes e muito mais. “O Cool se tornou isso, uma grande comunidade de troca de experiências de mulheres e homens que queiram participar, a respeito justamente dessa fase da vida”, conta Claudia.


Existe potência na construção de novas perspectivas acerca de nós mesmos e do outro, além de que idade é só um número e a sua personalidade continua sendo a chave para expressar seus sonhos e desejos. Assim como surgiram as primeiras mobilizações político-sociais, uma atitude particular reverbera no coletivo.


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