Flávia Durante: Mulheres no topo, democratização da moda e o tabu da gordofobia

Atualizado: 10 de jul. de 2021

Em uma época quando gordofobia ainda não era pauta, Flávia Durante idealizou o Pop Plus, feira de moda e cultura plus size


O esforço dobrado exigido do sexo feminino para chegar a posições de destaque deixou de ser um grande obstáculo para elas, não sendo mais capaz de levá-las à desistência durante a busca pela emancipação e destaque profissional. O cenário do empreendedorismo no Brasil está cada vez mais repleto de mulheres. De acordo com o Sebrae, entre 49 países do mundo, nosso país tem a sétima maior proporção de mulheres entre os “empreendedores iniciais”, sendo que nos últimos dois anos, a proporção de mulheres empreendedoras que são chefes de domicílio passou de 38% para 45%.


Mas quando o desafio não é ser apenas mulher, o cenário fica ainda mais opressivo - algo que Flávia Durante conseguiu contornar com muita destreza. Jornalista, empresária e DJ nas noites, ela é Diretora do Cena Pop Eventos Criativos e idealizou em 2012 o Pop Plus, uma feira de moda e cultura plus size. Ao perceber que o público feminino plus size não tinha acesso a moda e continuava enfrentando dificuldade para encontrar em lojas convencionais peças de seu tamanho, deu um jeito de levar marcas pequenas focadas neste segmento para clientes em potencial.


“Antigamente quando eu precisava de alguma roupa eu comprava masculina, de senhoras ou de grávidas. Não havia tendências, personalidade, era tudo feito para a mulher gorda se esconder”, relata o processo de mudança no mercado da moda plus size. “O movimento foi de dentro pra fora. Mulheres que são deste público e que não necessariamente eram do mundo da moda, criaram sua marca porque não se viam dentro desse mercado”, conta Flávia ao citar sua experiência no campo profissional. Com mais mulheres empreendendo e oferecendo produtos de qualidade para clientes plus size, a empresária deu destaque às novas marcas de roupas ao oferecer fácil acesso através de uma mediação entre elas e o consumidor final.


No entanto, esta não foi uma tarefa tão fácil logo no começo de sua iniciativa. “A maior dificuldade foi ser levada a sério porque se o gordo até hoje é visto como preguiçoso, imagina há oito anos”, disse. Enquanto nem mesmo algumas marcas acreditaram na ideia do Pop Plus, outras embarcaram no evento, que hoje atende um público de 12 mil pessoas e 90 marcas.


Flávia Durante no evento Pop Plus (Créditos: Imagem divulgada no Instagram)

Para ela, o machismo intrínseco dentro do empreendedorismo não é mais um impeditivo para que as mulheres alcancem seu sucesso. “Ao contrário dos homens que gostam de guardar o segredo do crescimento, as mulheres gostam muito de compartilhar”, reflete, frisando a importância da união entre o gênero feminino.


Em sua vida, Flávia Durante ainda teve que enfrentar muita descrença da parte de homens que subestimavam sua capacidade de ser DJ e comandar uma pick-up durante as festas nas quais já tocou. Ao explorar este seu lado no início dos anos 2000, se recorda de que na época o machismo não era tão percebido e debatido como hoje. “Tive situações em que eu ia tocar à noite e vinham três técnicos de som em cima como se eu não soubesse nem ligar o equipamento”, relata sobre a pressão vivida como mulher, mesmo em outros cenários. Mesmo assim, Flávia foi co-produtora do POPSCENE!, festa que resgatou a noite alternativa de Santos e virou referência no país.



Flávia Durante sorrindo
Flávia Durante (Créditos: Imagem divulgada no Twitter)

Amante da música e fã de dança desde que se conhece por gente, a empresária buscou levar esta expressão artística até mesmo para o Pop Plus, provando que dançarinas plus size também merecem visibilidade. Tal atitude a motivou a se entregar para a dança e se matricular em uma escola de ritmos. “Foi como se eu tivesse me redescoberto depois dos 43 anos. Esse processo foi muito legal de descobrir o meu corpo como agente de movimento, de prazer, de beleza, de arte”, conta.


Conquistando cada vez mais a liberdade de seu corpo, Flávia entende que tratar sobre gordofobia ainda é um tabu. “Acho que ainda falta uma discussão nacional sobre o assunto, abordando as diversidades de corpos, respeito, direito dos gordos, falar sobre o preconceito na saúde porque você não é visto como um indivíduo, você é visto como um número”, conclui.


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